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Mãe de duas estrelinhas

Mãe de duas estrelinhas

17.Out.17

Viver a dura realidade do seviço de neonatologia

Faz hoje 7 meses que entrei pela primeira vez num serviço de neonatologia.

Só de o relembrar fico com um sufoco e um aperto no coração, porque de facto não é para esta realidade que nos preparamos durante a gravidez. Imaginamos a chegada ao quarto com o bebé na sua caminha, onde ficará ali ao nosso lado, e onde o sentimento que reinará será o de alegria. No meu caso, fui apenas eu que entrei naquele quarto, e onde encontrei uma mãe também sem o seu bebé (caso muito diferente do meu). Destaco este cuidado que o hospital, não sabendo se é prática comum em todos, teve em colocar mães que não têm os seus bebés no mesmo quarto.

Foi numa cadeira de rodas, empurrada pelo amor da minha vida, que entrei nas primeiras portas da UCIN do HSFX, depois de nos identificarmos como os pais das gémeas. Ele explicou-me o processo de desinfecção e o que tínhamos de vestir. Comecei a ouvir os “pis”. Aqueles “pis” que até hoje continuam presentes. Aproximei-me das suas caixinhas e lá estavam elas serenas, a “descansar” do duro processo por que tinham passado ao chegar a este mundo. As lágrimas escorriam e o coração ficou pequenino, muito pequenino. O tamanho delas ou até mesmo os fios todos a que estavam ligadas, passou rapidamente a irrelevante. Obviamente que eram muito pequeninas, mas saber que estavam a passar tudo aquilo, a sofrer, e a lutar ao mesmo tempo, e a minha impotência em poder minimizar isso, é muito duro. Era isso que me fazia chorar.

Por mais que nos digam que não devemos chorar ao pé dos nossos filhos que eles sentem, eu não consegui. Não me considero pior mãe por isso, mas não estava preparada de todo para aquela realidade. É muito dura mesmo. E por mais que apenas ficássemos lá sentados somente a olhar para elas, com esperança e a fazer planos, chegávamos ao fim do dia exaustos, sem força. Psicologicamente é de uma violência brutal. E fisicamente, se a recuperação de uma cesariana numa situação normal não é fácil, numa situação destas, a dor torna-se insuportável. Até ao dia que o telefone toca e ouvimos o que não queremos. E infelizmente isso aconteceu ao fim de 6 dias. O telefone tocou, e não houve dores físicas, apenas a psicológica. E que dor. Lidar com a morte e a vida ao mesmo tempo. No mesmo momento em que a nossa estrelinha ML partiu, a nossa MR estava ali ao lado a lutar pela vida. Onde fomos buscar forças ? Não sei. Mas acho que nós pais temos esta força quando é preciso. Quando se trata dos nossos filhos nós temos a força toda do mundo.

E assim foi. Ganhámos força para continuar a nossa luta ao lado da MR, que apenas manifestou problemas no dia que a irmã partiu. Coincidências, ou não. E mais uma vez o telefone tocou. E o coração ficou pequenino. Transferida para a Estefânia. Nova “casa”, novos “vizinhos”. Mas a realidade é ainda mais dura que no HSFX. Bebés e crianças com problemas graves a lutar pela vida. E a nossa MR não foi excepção. Uma enterocolite necrosante, intervenção ao intestino, um pneumotórax e uns profissionais incansáveis. Bebés tão pequeninos e que aguentam tanto. São mesmo uns guerreiros.


É incrível a forma como os pais que estão a viver este dia a dia, sem nunca nos termos cruzado com eles, têm aquele olhar de conforto, uma palavra para tentar minimizar um pouco a nossa dor. Mesmo que os bebés deles estejam na mesma situação de limite. E foi o que aconteceu connosco. Uns pais que nos deram umas palavras que até hoje não esqueço, para não desistirmos e para acreditarmos até ao fim, e no dia seguinte o filho deles, que estava mesmo ao lado da nossa MR, partiu. E como nós compreendemos a dor daqueles pais.
O nosso percurso nas duas unidades de neonatologia foi muito duro, muito atribulado, e muitas vezes fomos buscar a força e a esperança que nos faltava aos testemunhos que os pais de outros bebés que tinham lá estado, tinham deixado. Houve um testemunho que me marcou particularmente em que referia

“Foi neste contexto que chegámos à UCIN, 'pais um dia de cada vez' ouvimos vezes sem fim. No início, os dias são horas, as horas minutos e os minutos segundos, tudo muda a uma velocidade estonteante, provocando um vórtice de emoções, que nos conduz entre a sanidade e a loucura!”

E infelizmente a realidade é mesmo esta. E não desejo a ninguém, ninguém mesmo, que passe pelo que passámos.

Quando passamos por esta realidade, por uma UCIN, percebemos que nem sempre se dá valor ao ter um bebé normal. As nossas “noites sem dormir”, as “cólicas”, o “arrotar” e as restantes preocupações de um bebé normal, foram substituídas por um monitor com os níveis de saturação, batimentos, pelos valores da gasimetria e das análises, pelas ecografias e raio X.
Tudo se resume à luta pela sobrevivência. E nisso as nossas filhas foram umas lutadoras. Até ao fim. E foi no nosso colo que partiram. Serenas. E com a certeza que nós pais as amámos e vamos amar para sempre.

 

 

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Uma palavra de agradecimento a todos os profissionais de saúde com que nos cruzámos e que fizeram tudo o que puderam para dar o mínimo de conforto às nossas filhas na dura batalha que tiveram durante a sua curta vida e que tudo fizeram para as salvar. O nosso muito obrigada.

Beijinho

Sara

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