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Mãe de duas estrelinhas

Mãe de duas estrelinhas

20.Out.18

A entrevista

No fim do mês de Agosto fui contatada pela jornalista Filipa Rosa, da Revista Crescer. Encontrou a minha página de Facebook e o meu blog , e achou que a nossa história era de alguma forma inspiradora e que pretendia fazer-nos uma entrevista. Decidimos então avançar com a entrevista e abrir mais uma vez o nosso coração, desta vez também com a voz do papá Bruno. Também ele partilhou o que sentiu, o que passou naqueles dias. E brevemente também ele abrirá o seu coração. 

Deixo aqui o link da entrevista , mas deixo igualmente o texto todo. 

E aproveito para agradecer do fundo do coração à Filipa por nos ter dado oportunidade de partilhar a nossa história, a nossa perda. E a todas as pessoas que a lerem , e que nos leêm . E à minha psicóloga, pela disponibilidade para dar o seu contributo para que a entrevista ficar mais completa. 

 

«Às vezes imaginamos como seria se vocês estivessem cá connosco. Fazemos isso muitas vezes. O papá questiona muitas vezes como seriam as vossas carinhas. Acho que ele gostava que fossem giras como ele. Quando vivemos algum momento mais marcante nas nossas vidas, imaginamos sempre como seria vivido se vocês ali estivessem. É inevitável. Vocês farão parte da nossa vida para sempre.»

Este é um excerto de um dos textos de Sara Calão, autora do blogue Mãe de Duas Estrelinhas. É uma espécie de «cantinho especial» onde a jovem de 31 anos desabafa sobre a perda das suas filhas, em 2017. Uma complicação na gravidez levou Sara de urgência para o hospital. Maria Leonor e Maria Rui acabaram por nascer aos seis meses de gestação. Viveram poucas semanas e a jovem não esquece cada minuto difícil que passou. Nem ela nem o marido, Bruno Roxo, de 33 anos.

Em entrevista ao site Crescer, Sara confessa que nunca mais foi a mesma pessoa, nem o marido. Mas a vontade de voltar a tentar engravidar é muita. «O sonho de ser mãe existiu sempre. Foi uma coisa que sempre quis. Sempre gostei de crianças. Foram umas filhas muito desejadas», começa por contar-nos. «Tive uma gravidez muito tranquila. Apenas muito sono e pouco apetite nos primeiros meses. Mas às 21 semanas fui parar às urgências com muitas dores nas costas, julgava eu por ter dormido mal. Foi-me diagnosticada uma infeção renal. Fiquei internada cinco dias. Estava tudo bem com as bebés, mas o colo do útero já estava a encurtar. Na véspera de fazer as 24 semanas fui novamente para as urgências com uma perda.»

O início do pesadelo

Foi aí que começou o pesadelo. As primeiras perdas de sangue deixaram o casal em pânico. «Nos dias que antecederam o internamento, andava com imensas dores nas ancas que me estavam a deixar desconfortável e não me deixavam dormir. Pensei que seria o corpo a adaptar-se a gravidez. No dia em que fui internada estava mesmo incomodada com as dores e já era quase meia noite quando fui a casa de banho e notei uma perda com uns laivos de sangue. O medo apoderou-se de nós e fomos logo para o hospital. Quando estava na sala de espera voltei a ter nova perda. Mas quando fui para a consulta de triagem a médica que me observou foi pouco correta e inicialmente desvalorizou a situação. Quando fui fazer o CTG, as enfermeiras viram logo que estava com contrações e, em ecografia, foi observado que estava com o colo do útero muito curto. E entrei para a zona da sala de partos já de cadeira de rodas sem me poder levantar. Foram-me logo administradas medicações para parar as contrações e injeções para a maturação dos pulmões das bebés», recorda aquela que começou a pensar no pior. «Foi muito assustador, porque os cenários foram logo todos colocados. As bebés eram pequeninas, era muito cedo para nascerem e poderiam ter muitas complicações. A prioridade foi parar as contrações, o que aconteceu durante a noite e manhã. As coisas foram acalmando e fui levada para o piso do internamento.»

Desde que Sara foi internada, os médicos nunca omitiram os riscos. Todos os cenários foram colocados. «Nunca nos deram falsas esperanças. Era muito cedo para elas nascerem. Ao fim de uma semana de internamento fui fazer a ecografia para ver como elas estavam e foi detetada Transfusão Feto Fetal, o que se traduzia com excesso de líquido numa das bebés e líquido reduzido da outra.»

As coisas pioraram e as contrações voltaram. Foi posta a hipótese de tentar aliviar a pressão dos líquidos. «Foi uma das decisões mais difíceis que alguma vez tomei, pois não fazer nada podia prejudica-las, e fazer o procedimento poderia acelerar o parto. Não havia o certo ou o errado e nós tomámos a decisão de fazer o procedimento na tentativa de melhorar as coisas. No dia seguinte elas nasceram (17 de Março). Obviamente que nós tivemos sempre esperança até o fim que as coisas podiam correr bem, apesar de termos consciência que era uma situação complicadíssima», conta.

        

 

 

Os primeiros (e únicos) dias das gémeas

O internamento das pequenas Marias foi «muito duro» para Sara e Bruno. «Para nós, pais, é de uma violência física e psicológica brutal. Todos os dias os médicos falavam connosco e iam-nos pondo a par da situação delas, e nunca houve melhorias. A Maria Leonor sempre esteve numa situação instável, nasceu numa situação quase inviável de sobrevivência, pois os níveis de hemoglobina eram baixíssimos. A Maria Rui estava estável, mas não melhorava. E durante todo o internamento sentimos que os médicos sempre foram sinceros connosco», relata a jovem, recordando um episódio marcante no hospital. «Na véspera da Maria Leonor falecer tinha tido uma noite com episódios graves e a médica veio ter connosco e disse-nos: ‘Poderemos ter de tomar uma decisão em relação a Maria Leonor para evitar mais sofrimento, mas a vossa filha é uma guerreira e enquanto estiver a lutar nós vamos lutar com ela’. Dizem muitas vezes que os pais não devem chorar ao pé das incubadoras onde os filhos estão, que devem deixar tudo isso lá fora antes de entrar. Eu não consegui. Chorei muito, a situação de impotência era demasiado dolorosa e ali sentada pedi muito em silêncio para que as coisas ficassem bem.»

«Peguei na nossa filha para morrer nos meus braços»

No dia seguinte, a 23 de março, Maria Leonor estava numa situação muito crítica e os médicos chamaram os pais. «A qualquer momento ela iria partir. Fomos para o hospital, explicaram-nos o que se passava e que não havia mais nada a fazer. E, pela primeira vez, peguei na nossa filha, peguei-lhe para morrer nos meus braços. Tivemos de lidar com a morte e com a vida ao mesmo tempo», recorda.

Coincidência ou não, segundo Sara, a pequena Maria Rui só começou a ficar numa situação instável depois da irmã partir. «Feitio do pai, que põe sempre os outros em primeiro lugar», brinca para tentar aligeirar a conversa. Uma enterocolite necrosante (lesão no intestino) levou a bebé a ser operada de urgência. Mas os pulmões não colaboraram e a situação piorou. «Esperança há sempre. Mais uma vez os médicos nunca nos iludiram nem deram falsas esperanças. Mas temos de nos agarrar a essa esperança para termos força para lá estarmos com ela.»

E no dia 5 de abril, o casal volta a encarar a pior das realidades. «São pequeninos, mas a expressão de sofrimento é percetível para nós, pais. Esse dia foi uma montanha-russa. Quando chegámos não havia grandes alterações. De repente tudo muda e não conseguiam perceber o que se passava. Vivemos momentos de sufoco! Quando descobrem, quando conseguem aliviar a pressão e os níveis estabilizam, parecia que nos tinham retirado toneladas de cima. Mas a verdade é que tudo isto deixou sequelas e, mais uma vez, pegámos na Maria Rui ao colo pela primeira vez, para ela morrer nos nossos braços.»

A falta de apoio psicológico nos hospitais

Nem todos os hospitais oferecem o mesmo apoio psicológico a mães que passam por um processo complicado, como é o caso de Sara. Assistir durante vários dias à luta das filhas para sobreviver deixou-a de rastos psicologicamente. «Acompanhamento médico tivemos sempre, mesmo quando tive alta. Os médicos tinham a preocupação de saber como eu estava. E durante o internamento delas, sentimos sempre que médicos e enfermeiros tinham a preocupação de falar connosco e explicar o que iam fazendo e o que se estava a passar com elas. Em relação ao acompanhamento psicológico, penso que poderia haver mais essa preocupação por parte do hospital quando a mãe está internada antes do parto. Depois do parto também não senti que houvesse esse apoio especificamente para pais que estão a passar o que estamos a passar», lamenta Sara, que escreveu um texto no seu blogue sobre o assunto (leia aqui).

A violência do registo dos óbitos

Completamente devastados, Sara e Bruno tiveram de tratar do registo dos óbitos e contactar a funerária. «Para os pais é uma grande violência tratar de todo este processo e é a mãe que tem de assinar todos os papéis por isso tem mesmo de estar presente. Não sei se será possível delegar a alguém», explica. «É muito duro. Num momento estamos à espera de duas filhas tão desejadas, e no momento seguinte estamos a passar pelo funeral das duas. É uma dor que não consigo explicar. Felizmente tivemos muito apoio tanto num como no outro. Sinto que estivemos sempre em sintonia. Chorámos os dois, falámos quando sentimos vontade de o fazer. E sinto que nenhum de nós em momento algum evitou falar sobre o que aconteceu. E sem dúvida que este apoio, esta sintonia é mesmo muito importante para conseguirmos seguir em frente. Como pais que perderam os filhos, como casal, e como homem e mulher.»

Sara assume-se uma mulher diferente, mais forte. A sua perspetiva perante a vida mudou por completo. «Cresci neste processo, e sinto que vejo a vida de uma forma mais leve, aprendi a relativizar os problemas. Umas vezes melhor do que outras, mas a verdade é que não é há uma forma correta de se lidar com estas situações. Cada pessoa lida à sua maneira. E aquilo que eu senti em determinado momento neste processo de luto foi que também merecia ser feliz. E que ia lutar para que isso fosse possível. E aos poucos vai acontecendo», afirma.

Para o pai também é difícil ultrapassar a morte de duas filhas que acabaram de nascer. E o sentimento de impotência é enorme, segundo nos conta Bruno. «É um sentimento devastador, de uma impotência tremenda para o qual ninguém está preparado. Juntamente com todo o processo durante a gravidez, principalmente nas últimas semanas de gestação, a angústia de ver a Sara deitada numa cama de hospital sem poder fazer nada, de deixá-la lá ao fim do dia sozinha e sair do hospital sempre com um aperto no coração com esperança que corra tudo bem e depois ter o desfecho que teve… é um sentimento muito difícil de superar. Mas a vida continua e acredito que onde quer que as nossas filhas estejam elas quererão que nós sigamos em frente, um dia de cada vez e que futuramente possamos lhes dar mais irmãos ou irmãs», desabafa o jovem que acredita num futuro melhor.

O blogue que nasceu

A dor de perder as duas filhas e o vazio que sentia no peito levaram Sara a lançar o blogue Mãe de Duas Estrelinhas, onde a jovem partilha e desabafa com outras mães tudo aquilo que passou. «Há muitos blogues de quando as coisas correm bem, mulheres que relatam a sua vida de mães. Mas quando as coisas não correm bem, a tendência é não se falar no assunto, ou só falar quando volta a acontecer e até corre bem e se recorda que anteriormente não foi assim. E eu senti necessidade de partilhar a minha experiência. Também fui mãe. E tenho de lidar com a realidade de ser mãe sem filhas», conta aquela que tem recebido excelente feedback do público. «Chegaram-me muitas mensagens de mães com histórias parecidas, que também perderam filhos. E até mesmo mensagens de esperança, de quem perdeu, mas que entretanto “ganhou”. É bom sentir que de alguma forma consigo chegar ao coração delas. E sinto também um carinho muito grande de quem me rodeia, de quem me lê, e me dá força para seguir o caminho e lutar pela felicidade. Espero um dia também poder partilhar com quem me lê, um final feliz.»

Apesar da dificuldade, Sara faz questão de deixar uma mensagem de apoio a quem esteja a passar pelo mesmo: «As pessoas são realmente diferentes e vivem os processos de maneiras completamente distintas. Mas essencialmente aquilo que posso passar é que não é errado seguir com a vida em frente. Aquilo por que estão a passar é muito duro, ninguém tem o direito de vos exigir o que quer que seja num momento de perda. Tudo leva o seu tempo. E ser feliz não é errado. Pelo menos no meu ponto de vista. Acho que acima de tudo, as nossas filhas e os vossos filhos, onde quer que estejam, iam gostar que os pais lutassem pela sua felicidade. Independentemente de quererem ou não mais filhos. O importante é aos poucos tentar sossegar o coração, pois isso atenua a dor. E aos poucos é possível viver.»

Nada acontece por acaso… e Sara concorda com esta expressão popular. «Obviamente que é difícil aceitar e perceber o porquê de acontecer connosco, ou simplesmente perceber o porquê. Por vezes há coisas na vida que não têm mesmo resposta. Cabe-nos a nós aceitá-las ou não. Mas penso que ao aceitar, se torna mais fácil seguir. Agora a curto prazo, sinto que apenas nos uniu mais e provou que juntos somos capazes de enfrentar adversidades como estas. A longo prazo talvez consiga entender melhor o porquê de termos passado por isto.»

Como se recupera de uma tragédia destas?

Esta é a questão que todos fazem quando um casal perde um filho. Sara perdeu as suas duas meninas e pensou que nunca fosse recuperar. A dor é eterna. Mas a ajuda da psicóloga Sofia Moura foi fundamental. «Na verdade, não consegue, demora o seu tempo. Os pais confrontam-se com um projeto de vida falhado, pelo que é necessário chorá-lo e aceitá-lo para depois poderem reerguer-se, reorganizar-se, reestruturar-se», começa por explicar-nos. «A perda de um filho é um golpe fatal no destino desejado. Os sentimentos perante a perda são universais e acometem todos os seres humanos em todas as épocas da nossa história. De modo geral o ser humano reage a estas duras perdas com pouca motivação para a vida e com uma grande revolta e indignação. Esta revolta deve traduzir-se numa revolução na sua vida, para que não volte ao mesmo sítio se faça o processo de luto. Vivenciar o luto é uma contingência obrigatória diante das perdas.»

Este foi o golpe mais duro na vida de Sara, do marido e da restante família. Mas o pior é mesmo para o casal. O enterro das bebés terá sido dos mais violentos acontecimentos nas suas vidas. Como gerir os sentimentos nesta fase cruel da vida? «Poder-se-á falar em choque, sendo que o indivíduo demora algum tempo a processar o que a vida lhe trouxe, ou melhor dizendo o que a vida lhe levou, contrariando todos os sonhos e fantasias que foram construídas até então», refere a psicóloga, assumindo o luto como fundamental. Há efetivamente um luto a fazer, mas o tempo deste luto varia de indivíduo para indivíduo. A importância do projeto de sermos pais é para grande parte dos indivíduos um projeto basilar e central nas suas vidas, pelo que o desmoronar do mesmo, principalmente quando pressupõe o passarem pelo processo de entrega e dedicação da gravidez (de ambos), apresenta-se como um duríssimo golpe, uma tragédia.»

Depois da tragédia, há que «montar os cacos» de um ser humano desfeito. A ajuda psicológica é essencial. Segundo Sofia Moura, a meditação apresenta-se como benéfica na gestão das angústias e ansiedades, mas a medicação é fundamental para ajudar inicialmente. «A medicação pode ajudar nos primeiros momentos em que a pessoa pode precisar de ajuda para dormir ou para lidar com a angústia e ansiedade. As reuniões com outros pais poderão realizar-se, ao contrário da medicação. Não num primeiro momento em que é tudo ainda muito violento e doloroso, mas eventualmente quando já existe uma aceitação emocional da realidade do que aconteceu e em que se procuram formas de lidar com este trauma. Aqui pode ser importante a partilha de outras experiências, de outras formas de lidar/gerir a dor que a perda provoca(ou)», explica.

O psicoterapeuta apresenta-se como o catalisador capaz de procurar o processo de mudança, segundo nos indica. «Trabalham-se as culpas, assim como os medos que são emoções inibitórias, no âmbito de um processo psicoterapêutico, explorando-se o funcionamento psicológico dos indivíduos, procuram-se novas formas de sentir e de pensar, novas perspetivas. Ajuda-se a pessoa a perceber que aconteceu ‘aquilo’, mas que a vida não acaba aí, que há outros interesses, e acima de tudo que existe um futuro.»

Quanto tempo pode demorar o luto e a aceitação da realidade? «Depende de pessoa para pessoa. Cada caso é um caso.» E quando é que o casal está pronto para voltar a tentar engravidar? «Mais uma vez depende de casal para casal, da forma como se reestruturaram e do que querem e veem para o seu futuro. É importante que se faça o luto. É necessário chorar primeiro a perda, aceitá-la e depois agir em função da forma como vão querer viver as suas vidas, sendo que imediatamente a seguir a uma perda não estarão a agir, mas sim a reagir.»

A extrema desilusão pode levar à impossibilidade de ter mais filhos? «Quando a pessoa faz o seu processo de luto e vislumbra um futuro para si, volta a construir outros projetos para a sua vida, sendo que o ter filhos (mais) pode fazer parte novamente dos seus planos ou não. Isto vai variar de pessoa para pessoa, a forma como a pessoa se vê e o que quer para si. A pessoa escolhe a influência deste acontecimento traumático na sua história, podendo escolher não ter mais filhos, sim.»

Como se explica a perda de um irmão que acaba de nascer?

No site Crescer, este tema já foi abordado várias vezes. A morte é algo difícil de explicar às crianças. Não foi o caso de Sara, mas são muitas as famílias que ultrapassam este problema. «Convém perceber o que a criança sabe sobre o tema para conseguir adaptar melhor a conversa. Isto depende sempre da idade da mesma, sendo que só por volta dos seis anos ela entende conceito de irreversibilidade da morte. A forma deve ser calma, verdadeira e honesta, sem grandes pormenores», adianta Sofia Moura.

 

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